Emílio então falou-me de si. (...)
Com a morte da mãe e do pai, aos 10 anos, um tio tomou conta dele. Era um tio-avô? - a única pessoa da família que lhe restava.(...)
O tio reaprendia com o sobrinho a verdade da juventude, colaborava com ele, portanto sem o "educar".
- Mas sem me contrariar ajudava-me imenso.
Passeava com ele, estudava com ele aplicadamente, dizia dos exercícios que Emílio fazia nas aulas: "correu-nos bem, apanhamos um 13"; ou: "não tivemos sorte desta vez". (...)
- Uma vez vim aqui (à estalagem do Jeremias) com o meu tio - disse.
- Bom, eu tinha feito um mau exercício. E tive nota baixa. Voltei a casa sucumbido. Ele viu-me assim "em baixo" e animou-me: "trabalhámos quanto pudemos, não é? Não tivemos foi sorte. Acho que merecemos uma recompensa, apesar de tudo. Vamos daí jantar ao Jeremias". Ora ele não sabia que eu não tinha pegado em livro. Quase nem comi. Doeu-me mais o "prémio" do que um castigo... Um castigo se calhar também une. Mas o velho tio era assim.
Adaptado de "Estrela Polar", de Vergílio Ferreira
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sexta-feira, 12 de junho de 2020
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Voar com as palavras
- O Carlo, o chefe dos criados do restaurante, garante que eu lhe pertenço e eu deixo-o acreditar nisso porque é bom tipo. Ele entende de futebol, de basquetebol, de voleibol, de corridas de cavalos, de boxe e de muitos mais desportos, mas, lamentavelmente, nunca o ouvi falar de voo - informou Secretário.
(...)
- E o que te leva a pensar que esse humano [um poeta] sabe voar? - quis saber Secretário.
-Talvez não saiba voar com asas de pássaro, mas ao ouvi-lo sempre pensei que voa com as palavras - respondeu Zorbas.
in "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar", de Luis Sepúlveda
(...)
- E o que te leva a pensar que esse humano [um poeta] sabe voar? - quis saber Secretário.
-Talvez não saiba voar com asas de pássaro, mas ao ouvi-lo sempre pensei que voa com as palavras - respondeu Zorbas.
in "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar", de Luis Sepúlveda
Filhos gaivotas
- Mamã! Queriam comer-me! - grasnou a gaivotinha.
- Comer o seu filho? Não, senhora. De modo algum - miou um com a cabeça colada ao chão.
- Nós somos vegetarianos, senhora. Vegetarianos rigorosos - assegurou o outro.
- Não sou uma »senhora», seus idiotas - miou Zorbas puxando-lhes as orelhas para que pudessem vê-lo.
Eriçou-se o pêlo dos dois malvados quando o reconheceram.
- Tem um filho muito bonito, amigo. Será um grande gato - assegurou o primeiro.
- Pois é, vê-se logo que é um gatinho todo bem parecido - afirmou o outro.
- Não é um gato. É uma cria de gaivota, seus estúpidos - esclareceu Zorbas.
- É o que eu estou sempre a dizer aqui ao meu compadre: é preciso ter filhos gaivotas. Não é verdade, compadre? - declarou o primeiro."
in "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar", de Luis Sepúlveda
- Comer o seu filho? Não, senhora. De modo algum - miou um com a cabeça colada ao chão.
- Nós somos vegetarianos, senhora. Vegetarianos rigorosos - assegurou o outro.
- Não sou uma »senhora», seus idiotas - miou Zorbas puxando-lhes as orelhas para que pudessem vê-lo.
Eriçou-se o pêlo dos dois malvados quando o reconheceram.
- Tem um filho muito bonito, amigo. Será um grande gato - assegurou o primeiro.
- Pois é, vê-se logo que é um gatinho todo bem parecido - afirmou o outro.
- Não é um gato. É uma cria de gaivota, seus estúpidos - esclareceu Zorbas.
- É o que eu estou sempre a dizer aqui ao meu compadre: é preciso ter filhos gaivotas. Não é verdade, compadre? - declarou o primeiro."
in "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar", de Luis Sepúlveda
domingo, 10 de março de 2013
Química explosiva
Requisitei, na secção juvenil da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, um livro intitulado "Química explosiva" (do inglês, "Chemical Chaos"), escrito por Nick Arnold. Como refere o autor, neste livro pode-se "conhecer os segredos de alguns químicos malucos e das suas não menos estranhas descobertas". Uma das histórias relatadas no livro é a de Sir Martin Frobisher (1537-1596) que encontrou, no deserto de gelo da ilha de Buffin, rocha dourada. Como um alquimista lhe disse que se tratava de ouro, Frobisher voltou à ilha e trouxe, de uma vez, 180 toneladas de rocha dourada e, noutra expedição, 1180 toneladas. Foi então que se descobriu tratar-se de pirite, que ficou conhecida como o ouro dos tolos.
Contudo, a história mais surpreendente não foi escrita por Nick Arnold. Passo a contar: no verso da capa deste livro, encontrei a seguinte mensagem, escrita com uma boa caligrafia: "91989.... Gatinha procura-se, sou bonito e muito bom rapaz :)". Quem se lembraria de utilizar um livro de Química para procurar um animal felino?
Contudo, a história mais surpreendente não foi escrita por Nick Arnold. Passo a contar: no verso da capa deste livro, encontrei a seguinte mensagem, escrita com uma boa caligrafia: "91989.... Gatinha procura-se, sou bonito e muito bom rapaz :)". Quem se lembraria de utilizar um livro de Química para procurar um animal felino?
sábado, 2 de fevereiro de 2013
O tempo não passa por mim
O tempo não existe senão no instante em que estou. Que me é todo o passado senão o que posso ver nele do que me sinto, me sonho, me alegro ou me sucumbo? Que me é todo o futuro senão o que agora me projecto? O meu futuro é este instante desértico e apaziguado. Lembro-me da infância, do que me ofendeu ou sorriu: alguma coisa veio daí e sou eu ainda agora, ofendido ou risonho: a vida do homem é cada instante - eternidade onde tudo se reabsorve, que não cresce nem envelhece -, centro de irradiação para o sem-fim de outrora e de amanhã. O tempo não passa por mim: é de mim que ele parte, sou eu sendo, vibrando.
Vergílio Ferreira, "Aparição"
Vergílio Ferreira, "Aparição"
sábado, 8 de setembro de 2012
Aparição
- Que curso queres seguir?
Tinha de optar já, no 6.º ano do liceu, pelo de Letras ou Ciências. Mas o interesse profundo de um e de outro como podia eu sabê-lo? A verdade de um curso não está no que aí se aprende mas no que disso sobeja: o halo que isso transcende e onde podemos achar-nos homens. Assim meu pai, que era médico, estava certo com a sua profissão, como o meu irmão Tomás estaria com o seu curso de Agronomia, como o meu irmão Evaristo com as suas sucessivas reprovações no 5.º ano.
- Penso - disse meu pai - que te darás melhor em Letras.
Decerto, decerto: eu nunca tivera saúde, a vida de professor era tranquila. Porque eu sonhara sempre, talvez por isso, com uma farda militar e uma vida romanesca. Meu pai corrigiu:
- Não é só isso. Há mais razões.
Sim. Havia o meu interesse pelas leituras, a invenção do indizível e o meu verso clandestino que a cantava. [...] Havia enfim, desde a infância, essa velha pergunta sobre a descoberta de nós próprios e que eu também fizera um dia a meu pai:
- Quem sou eu?
Era uma tarde de Verão, meu pai lia o jornal ao pé do tanque, eu olhava a água, absorto.
- Bom - disse meu pai, um pouco perturbado: - tu és meu filho, um homem, um ser vivo que pensa, que vive e que há-de morrer como todo o ser vivo.
- Mas eu, eu o que é que sou?
Meu pai optou por contar-me a história da evolução da vida. Mas eu, que a acredito hoje como exacta, sentia, como sinto, que alguma coisa ficava por explicar e que era eu próprio, essa entidade viva que me habita [...].
"Aparição", Vergílio Ferreira
Tinha de optar já, no 6.º ano do liceu, pelo de Letras ou Ciências. Mas o interesse profundo de um e de outro como podia eu sabê-lo? A verdade de um curso não está no que aí se aprende mas no que disso sobeja: o halo que isso transcende e onde podemos achar-nos homens. Assim meu pai, que era médico, estava certo com a sua profissão, como o meu irmão Tomás estaria com o seu curso de Agronomia, como o meu irmão Evaristo com as suas sucessivas reprovações no 5.º ano.
- Penso - disse meu pai - que te darás melhor em Letras.
Decerto, decerto: eu nunca tivera saúde, a vida de professor era tranquila. Porque eu sonhara sempre, talvez por isso, com uma farda militar e uma vida romanesca. Meu pai corrigiu:
- Não é só isso. Há mais razões.
Sim. Havia o meu interesse pelas leituras, a invenção do indizível e o meu verso clandestino que a cantava. [...] Havia enfim, desde a infância, essa velha pergunta sobre a descoberta de nós próprios e que eu também fizera um dia a meu pai:
- Quem sou eu?
Era uma tarde de Verão, meu pai lia o jornal ao pé do tanque, eu olhava a água, absorto.
- Bom - disse meu pai, um pouco perturbado: - tu és meu filho, um homem, um ser vivo que pensa, que vive e que há-de morrer como todo o ser vivo.
- Mas eu, eu o que é que sou?
Meu pai optou por contar-me a história da evolução da vida. Mas eu, que a acredito hoje como exacta, sentia, como sinto, que alguma coisa ficava por explicar e que era eu próprio, essa entidade viva que me habita [...].
"Aparição", Vergílio Ferreira
sábado, 24 de março de 2012
"Os Dalton e o psicólogo"
O psicólogo Prof. von Himbeergeist desloca-se aos Estados Unidos para tratar "os bandidos da melhor espécie". Lucky Luke leva-o a uma penitenciária, onde o director da instituição lhes apresenta 4 presos:
- Sam, o sanguinário. Assassinou o cunhado do governador do estado. Condenado à forca, viu a sua pena comutada a 6 meses de prisão pelo governador do estado.
- Max, o chacinador. Recusou-se a pagar a refeição, com o pretexto de que estava ensossa. Matou toda a gente no restaurante. Três meses por comer sem pagar.
- Tom, o matador. Destruiu Wallystown. Doze mortos. Quatro meses por fazer barulho durante a noite.
- Ronald Weatherford. Roubou um cavalo. Condenado a pena perpétua.
Lucky Luke (dirigindo-se ao professor): Então? Estes presos interessam-lhe?
Prof.: Nem por isso. Preferia conhecer os juízes que os condenaram.
- Sam, o sanguinário. Assassinou o cunhado do governador do estado. Condenado à forca, viu a sua pena comutada a 6 meses de prisão pelo governador do estado.
- Max, o chacinador. Recusou-se a pagar a refeição, com o pretexto de que estava ensossa. Matou toda a gente no restaurante. Três meses por comer sem pagar.
- Tom, o matador. Destruiu Wallystown. Doze mortos. Quatro meses por fazer barulho durante a noite.
- Ronald Weatherford. Roubou um cavalo. Condenado a pena perpétua.
Lucky Luke (dirigindo-se ao professor): Então? Estes presos interessam-lhe?
Prof.: Nem por isso. Preferia conhecer os juízes que os condenaram.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
O Conto da Ilha Desconhecida
Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco.
[...]
E tu para que queres o barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou (...)
Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas no mapa, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida.
[...]
...o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas.
[...]
Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.
José Saramago, em "O Conto da Ilha Desconhecida"
[...]
E tu para que queres o barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou (...)
Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas no mapa, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida.
[...]
...o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas.
[...]
Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.
José Saramago, em "O Conto da Ilha Desconhecida"
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Um rapaz que brinca na praia
Não sei o que pareço ao mundo; aos meus próprios olhos, sou apenas um rapaz que brinca na praia e se diverte, que de vez em quando encontra um seixo mais liso ou uma concha mais bonita do que o costume, enquanto o grande oceano da verdade permanece por descobrir diante de mim.
Newton, citado por Carl Sagan, em "Cosmos"
Curiosamente, leio que vão fazer uma sequela da série de divulgação científica "Cosmos", estando Ann Druyan (viúva de Carl Sagan) envolvida no projecto. A série deve estrear em 2013 e a música de Vangelis devia manter-se...
Newton, citado por Carl Sagan, em "Cosmos"
Curiosamente, leio que vão fazer uma sequela da série de divulgação científica "Cosmos", estando Ann Druyan (viúva de Carl Sagan) envolvida no projecto. A série deve estrear em 2013 e a música de Vangelis devia manter-se...
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Escrever...
Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.
Miguel Sousa Tavares
E se escreveres de mais, não falas?
Miguel Sousa Tavares
E se escreveres de mais, não falas?
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Um amor oculto
[...] A minha amada desconhecida chegaria a qualquer momento. Amávamo-nos por carta desde a Primavera anterior. Excepcional Leocadia!
[...] Deteve-se um táxi à entrada do café. [...]
Leocadia entrou no café e chegou ao pé de mim [...].
Pediu não me lembro o quê e falou-me dos nossos amores epistolares, de quão feliz pensava ser, como me amava já...
- Também eu te amo com toda minha alma - disse-lhe.
- Que dizes? - perguntou.
- Que também te amo com toda a alma.
- Quê?
Vi a horrível verdade. Leocadia era surda.
- Quê? - insistia.
- Que também eu te amo com toda a alma! - repeti, gritando. E arrependi-me de seguida, porque se viraram dez fregueses para me olharem, evidentemente incomodados.
- A sério que me amas? Jura-mo.
- Juro!
- Quê?
- Juro! - vociferei.
Olharam-me com ódio vinte fregueses.
[...]
- Nas tuas cartas dizias que os meus olhos eram muito melancólicos. Ainda achas?
- Sim! - gritei, como se estivesse a dar uma conferência na Praça de Touros. - Os teus olhos são muito melancólicos!
[...] Todo o café nos olhava. Todas as conversas se calavam, só me ouviam a mim. Nas montras começaram a ver-se transeuntes curiosos que contemplavam a cena.
[...] Não sei quanto tempo continuei, afrontando os rigores da opinião alheia. Sei que, por fim, aproximou-se um guarda.
- Faça o favor de não escandalizar - disse-me. - Peço-lhe que o senhor e a menina abandonem o local.
Voltei-me para Leocadia: - Põe-nos fora por escândalo.
- Por escândalo! - disse estupefacta. - Então mas estamos num cantinho do café a contarmos em voz baixa os nossos segredos...
[...] Passado um mês, todo Madrid nos conhecia. O mesmo aconteceu em Bordéus, em Paris, em Marselha e em Londres. Há quinze dias que estamos em Buenos Aires e já planeamos a mudança para o México.
adaptado de "Um amor oculto", de Enrique Jardiel Poncela
[...] Deteve-se um táxi à entrada do café. [...]
Leocadia entrou no café e chegou ao pé de mim [...].
Pediu não me lembro o quê e falou-me dos nossos amores epistolares, de quão feliz pensava ser, como me amava já...
- Também eu te amo com toda minha alma - disse-lhe.
- Que dizes? - perguntou.
- Que também te amo com toda a alma.
- Quê?
Vi a horrível verdade. Leocadia era surda.
- Quê? - insistia.
- Que também eu te amo com toda a alma! - repeti, gritando. E arrependi-me de seguida, porque se viraram dez fregueses para me olharem, evidentemente incomodados.
- A sério que me amas? Jura-mo.
- Juro!
- Quê?
- Juro! - vociferei.
Olharam-me com ódio vinte fregueses.
[...]
- Nas tuas cartas dizias que os meus olhos eram muito melancólicos. Ainda achas?
- Sim! - gritei, como se estivesse a dar uma conferência na Praça de Touros. - Os teus olhos são muito melancólicos!
[...] Todo o café nos olhava. Todas as conversas se calavam, só me ouviam a mim. Nas montras começaram a ver-se transeuntes curiosos que contemplavam a cena.
[...] Não sei quanto tempo continuei, afrontando os rigores da opinião alheia. Sei que, por fim, aproximou-se um guarda.
- Faça o favor de não escandalizar - disse-me. - Peço-lhe que o senhor e a menina abandonem o local.
Voltei-me para Leocadia: - Põe-nos fora por escândalo.
- Por escândalo! - disse estupefacta. - Então mas estamos num cantinho do café a contarmos em voz baixa os nossos segredos...
[...] Passado um mês, todo Madrid nos conhecia. O mesmo aconteceu em Bordéus, em Paris, em Marselha e em Londres. Há quinze dias que estamos em Buenos Aires e já planeamos a mudança para o México.
adaptado de "Um amor oculto", de Enrique Jardiel Poncela
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Ser pai...
"Ser pai é como ser atleta de alta competição" (João Miguel Tavares, no lançamento do livro "Os homens precisam de mimo", CM)
sábado, 2 de julho de 2011
"No vale das sombras"
Já por seis vezes dei de caras com a morte. E por seis vezes a morte desviou os olhos e deixou-me passar. É claro que a morte vai acabar por me tolher o passo - como faz a toda a gente. A única questão é quando. E como.
Aprendi muito com os nossos encontros - principalmente sobre a beleza e a doce pungência da vida, sobre o valor inestimável dos amigos e da família e sobre a força transformadora do amor. [...] Adorava acreditar que, quando morrer, vou voltar a viver, que uma parte de mim que pensa, sente e recorda vai continuar.
[...] O mundo é tão admirável, tão cheio de amor e profundidade moral, que não há razão para nos iludirmos com lindas histórias sem sentido que se veja. Vale bem mais, acho eu, que na nossa vulnerabilidade olhemos a morte nos olhos e nos sintamos gratos em cada dia pela breve mas magnífica oportunidade que a vida nos dá.
Há anos que mantenho ao lado do espelho diante do qual faço a barba - para o ver todas as manhãs - um postal encaixilhado. [...] Diz assim: "Caro Amigo, Apenas umas linhas para mostrar que estou vivo e de saúde e a passar um belo bocado. Isto é o máximo! Seu, WJR"
(WJR viajava no "White Star Liner Titanic" e foi uma das 1500 vítimas do naufrágio deste navio).
Carl Sagan, in "Biliões e Biliões"
Aprendi muito com os nossos encontros - principalmente sobre a beleza e a doce pungência da vida, sobre o valor inestimável dos amigos e da família e sobre a força transformadora do amor. [...] Adorava acreditar que, quando morrer, vou voltar a viver, que uma parte de mim que pensa, sente e recorda vai continuar.
[...] O mundo é tão admirável, tão cheio de amor e profundidade moral, que não há razão para nos iludirmos com lindas histórias sem sentido que se veja. Vale bem mais, acho eu, que na nossa vulnerabilidade olhemos a morte nos olhos e nos sintamos gratos em cada dia pela breve mas magnífica oportunidade que a vida nos dá.
Há anos que mantenho ao lado do espelho diante do qual faço a barba - para o ver todas as manhãs - um postal encaixilhado. [...] Diz assim: "Caro Amigo, Apenas umas linhas para mostrar que estou vivo e de saúde e a passar um belo bocado. Isto é o máximo! Seu, WJR"
(WJR viajava no "White Star Liner Titanic" e foi uma das 1500 vítimas do naufrágio deste navio).
Carl Sagan, in "Biliões e Biliões"
domingo, 15 de maio de 2011
Um bom estudante
Para se ser um bom estudante, é preciso
ter facilidade na interpretação,
vontade de se concentrar em tudo o que nos é explicado,
ser-se organizado para apontar o que foi apresentado nas aulas e estudá-lo meticulosamente.
Albert Einstein, citação incluída na biografia do cientista, editada pelo Expresso
ter facilidade na interpretação,
vontade de se concentrar em tudo o que nos é explicado,
ser-se organizado para apontar o que foi apresentado nas aulas e estudá-lo meticulosamente.
Albert Einstein, citação incluída na biografia do cientista, editada pelo Expresso
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Ser turista
"Ser turista é fugir da responsabilidade. Os erros e os defeitos não se colam a nós como em casa. Somos capazes de vaguear por continentes e línguas, suspendendo a actividade do pensamento lógico. O turismo é a marcha da imbecilidade. Contam que sejamos imbecis. Todo o mecanismo do país hospedeiro está adaptado aos viajantes que se comportam de um modo imbecil. Andamos às voltas aturdidos, olhando de esguelha para mapas desdobrados. Não sabemos falar com as pessoas, ir a lado nenhum, quanto vale o dinheiro, o que comer ou como o comer. Ser-se imbecil é o padrão, o nível e a norma. Podemos continuar a viver nestas condições durante semanas e meses, sem censuras nem consequências terríveis. Tal como a outros milhares, são-nos concedidas imunidades e amplas liberdades. Somos um exército de loucos, usando roupas de poliéster de cores vivas, montando camelos, tirando fotografias uns aos outros, fatigados, desintéricos, sedentos. Não temos mais nada em que pensar senão no próximo acontecimento informe."
Don DeLillo, "Os Nomes"
sugestão do "Bolas e Letras"
Don DeLillo, "Os Nomes"
sugestão do "Bolas e Letras"
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Sabedoria de Ricardo Araújo Pereira
- "Toda a gente sabe tudo aos 15 anos. Só com o passar do tempo se vai descobrindo, com razoável sobressalto, que não se sabe quase nada";
- "Um jurista é alguém que conhece as leis tão profundamente, que é capaz de garantir que elas dizem o rigoroso oposto daquilo que manifestamente dizem";
- "Parece que fizemos a fusão do átomo, mas eu, pessoalmente, nem sei reconhecer um átomo se o vir na rua, quanto mais fundi-lo".
Ricardo Araújo Pereira, in "Novas Crónicas da Boca do Inferno"
- "Um jurista é alguém que conhece as leis tão profundamente, que é capaz de garantir que elas dizem o rigoroso oposto daquilo que manifestamente dizem";
- "Parece que fizemos a fusão do átomo, mas eu, pessoalmente, nem sei reconhecer um átomo se o vir na rua, quanto mais fundi-lo".
Ricardo Araújo Pereira, in "Novas Crónicas da Boca do Inferno"
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Que diz Ricardo Araújo Pereira sobre Portugal?
Ofereceram-me, pelo meu aniversário, as "Novas Crónicas da Boca do Inferno", de Ricardo Araújo Pereira. A maior parte destas crónicas é hilariante. Deixo aqui três frases engraçadas sobre Portugal, que retirei desse livro:
-"Gosto da esfera armilar na nossa bandeira. Mas uma sarjeta entupida, entre o vermelho e o verde, também não ficava mal":
- "A única maneira de Portugal atingir o nível de vida dos suecos é pôr um português a mandar na Suécia";
-"É certo que o esperam 71 virgens no paraíso, mas aposto que, morrendo num hospital português, o terrorista fica em lista de espera até as virgens serem septuagenárias, altura em que a virgindade perde muito do seu encanto".
-"Gosto da esfera armilar na nossa bandeira. Mas uma sarjeta entupida, entre o vermelho e o verde, também não ficava mal":
- "A única maneira de Portugal atingir o nível de vida dos suecos é pôr um português a mandar na Suécia";
-"É certo que o esperam 71 virgens no paraíso, mas aposto que, morrendo num hospital português, o terrorista fica em lista de espera até as virgens serem septuagenárias, altura em que a virgindade perde muito do seu encanto".
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Myanmar-Tailândia em voleibol
Suponha o leitor que, por acaso, liga o televisor e depara com uma competição em que não faz qualquer espécie de investimento emocional - por exemplo, um jogo particular de voleibol entre Myanmar e a Tailândia. Como é que decide por qual vai torcer? Mas espere aí: por que tem de torcer por alguém? Por que não se limita a apreciar o jogo? A maior parte das pessoas tem dificuldade em assumir uma postura distanciada deste tipo. Queremos participar na disputa, sentir-nos parte de uma equipa.
Carl Sagan, em "Biliões e Biliões"
Carl Sagan, em "Biliões e Biliões"
domingo, 6 de setembro de 2009
Direitos e deveres
Cumpramos os nossos deveres humanos, façamos com que a sua observância seja norma, porque essa é a maneira de exercer o maior dos nossos direitos: o direito de viver em harmonia.
Luis Sepúlveda, em "Uma história suja".
Luis Sepúlveda, em "Uma história suja".
domingo, 30 de agosto de 2009
O velho que lia romances de amor
Reli este fim-de-semana um livro fascinante, que recomendo vivamente, intitulado "O velho que lia romances de amor", escrito por Luis Sepúlveda.
Aqui deixo um excerto deste romance:
- É verdade que sabes ler, compadre?
- Alguma coisa.
- E que é que estás a ler?
- Um romance. Mas cala-te. Se falas, a chama mexe-se e mexem-se-me as letras.
O outro afastou-se para não estorvar, mas era tal a atenção que o velho prestava ao livro que não suportou ficar-se à margem.
- De que é que trata?
- Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
-Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
- Não. Trata-se do outro amor. Do que dói.
Aqui deixo um excerto deste romance:
- É verdade que sabes ler, compadre?
- Alguma coisa.
- E que é que estás a ler?
- Um romance. Mas cala-te. Se falas, a chama mexe-se e mexem-se-me as letras.
O outro afastou-se para não estorvar, mas era tal a atenção que o velho prestava ao livro que não suportou ficar-se à margem.
- De que é que trata?
- Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
-Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
- Não. Trata-se do outro amor. Do que dói.
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